Conheça um pouco mais sobre a história da relação entre o rockstar, Eric Clapton, sua paixão pelo mundo automotivo e sua lendária coleção de Ferraris.
por The Garage
Fundador The Garage
No panteão dos grandes colecionadores de automóveis, Eric Clapton ocupa uma cadeira cativa. Mas reduzir sua garagem a um capricho de rockstar seria um erro crasso. A relação de Clapton com as quatro rodas espelha sua relação com as seis cordas: uma busca incessante por alma, design e uma performance que beira o espiritual. Para nós, entusiastas, a história de Clapton é fascinante porque ele é um purista. Ele não coleciona para exibir; ele coleciona para sentir. Vamos mergulhar fundo nessa cronologia de octanagem e acordes.

O Prelúdio Estático: 1938 Cadillac Fleetwood
Toda obsessão tem uma gênese. Contudo, para Clapton, ela não começou com o ronco de um motor, mas sim com a estática beleza de um 1938 Cadillac Fleetwood. Aliás, é fascinante notar que o homem que se tornaria um dos maiores pilotos de grand tourers da história começou sua vida automotiva sem sequer ter habilitação. Naquela época, o Cadillac era visto meramente como uma escultura de metal estacionada em sua propriedade. Dessa forma, Clapton o admirava da janela, coberto de folhas, absorvendo as linhas do Art Deco americano. Essa experiência, portanto, definiu seu critério fundamental: antes de ser uma máquina, o carro precisa ser arte.

O Batismo de Fogo: A Influência de Harrison e a 365 GTC
A virada de chave, entretanto, aconteceu graças a George Harrison. Quando o Beatle apareceu em sua casa com uma Ferrari 365 GTC azul-escura, algo mudou quimicamente em Clapton. Afinal, não estamos falando de um modelo qualquer. Na verdade, a 365 GTC é um GT sofisticado, uma ponte entre os anos 60 e 70. Por conta disso, Clapton ficou tão hipnotizado que comprou o carro de Harrison. E é justamente aqui que reside um fato que separa os meninos dos homens: Eric Clapton aprendeu a dirigir câmbio manual e a técnica de punta-tacco em um V12 Ferrari. Sem dúvida, uma entrada no mundo automotivo tão audaciosa quanto seus solos no Cream.

A Trilha Sonora da Dor: Dino 206 GT e “Layla”
O ano de 1968 trouxe a Ferrari Dino 206 GT. Para o historiador automotivo, a Dino é especial por ser o primeiro Ferrari de estrada com motor central, desenhada para ser ágil e nervosa. Para Clapton, ela foi uma válvula de escape. Ele a adquiriu durante o turbilhão emocional que inspirou o álbum Layla and Other Assorted Love Songs. Apaixonado pela mulher de seu melhor amigo (Pattie Boyd), Clapton via na Dino a personificação daquela fase: um carro de beleza estonteante, temperamental, difícil de domar e perigosamente sedutor. A Dino não era apenas transporte; era companhia.

A Era de Ouro: Lusso e Daytona
À medida que seu gosto amadurecia, Clapton voltou-se para os grandes V12 dianteiros.
1964 Ferrari 250 GT Lusso: Frequentemente citada como o carro favorito de Clapton. A Lusso é o argumento final em qualquer debate sobre “carros como arte”. Com o V12 “Colombo” de 3.0 litros e linhas desenhadas pela Pininfarina, ela representa o equilíbrio perfeito entre elegância e agressividade contida.

1971 Ferrari 365 GTB/4 “Daytona”: Se a Lusso era a elegância, a Daytona era a força bruta. Capaz de ultrapassar 280 km/h, era a resposta da Ferrari ao Lamborghini Miura. O exemplar de Clapton, um dos meros 160 entregues no Reino Unido, simboliza a era em que ele abraçou a velocidade pura.

O Purismo Analógico e a Era Moderna
A coleção de Clapton prova que ele entende a engenharia.
1991 Ferrari F40: Ter uma F40 é o atestado de óbito da racionalidade e o triunfo da paixão. Motor V8 biturbo, zero assistências eletrônicas, cordas para abrir a porta. É um carro que exige respeito e habilidade, exatamente como uma Stratocaster plugada direto em um amplificador valvulado no volume 10.

2002 Ferrari Enzo: Quando a Ferrari lançou seu tributo ao fundador, Clapton estava lá. Rumores indicam que ele foi o primeiro cliente britânico a receber a chave dessa obra-prima de fibra de carbono e motor V12 de 660 cv.

A Obra-Prima Final: SP12 EC
O auge de qualquer colecionador é ter um carro feito para si. Em 2012, a Ferrari e a Pininfarina entregaram o SP12 EC. Baseado na mecânica da 458 Italia, o design é uma homenagem nostálgica à Ferrari 512 BB (Berlinetta Boxer) dos anos 70/80, um modelo que marcou a juventude de Clapton. O projeto custou milhões e levou anos. O toque de ironia do destino? Clapton, um purista dos 12 cilindros, implorou para que a Ferrari colocasse um V12 no chassi da 458. Por limitações físicas, teve que se contentar com o V8. Ainda assim, a SP12 EC é a prova física de que Eric Clapton não é apenas um cliente; ele é parte da história da Ferrari.

O apelido “Slowhand” pode ter vindo da ironia do público, mas na estrada, Clapton tem o pé direito pesado. Sua garagem não é um acúmulo de bens, mas uma curadoria que narra a evolução do automóvel esportivo italiano. Entre a melancolia de uma Dino e a fúria de uma F40, Clapton nos ensina que música e motores vibram na mesma frequência: a da emoção.
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